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Jovem cientista de 25 anos desenvolve poderosa arma contra Superbactérias

The Telegraph Journal – 25 sep/2016 (tradução livre – Daniel Souza) 

Não são muitos os jovens de 25 anos podem reivindicar para si que se levantam às 4h da manhã todos os dias, incluindo finais de semana para trabalhar, com o objetivo de salvar o mundo de um Armageddon iminente e que poderia custar dezenas de milhões de vidas. Pois nos últimos três anos, Shu Lam, um estudante de PhD da Malásia, da Universidade de Melbourne, tem feito exatamente isso. Fica em um laboratório trabalhando para descobrir como matar superbactérias que já não podem ser tratadas com antibióticos.

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Shu Lam, PHD – ajudando o mundo no combate às superbactérias

Shu acredita que tenha encontrado a chave para evitar uma crise de saúde muito grave. Na semana passada, a Organização das Nações Unidas (ONU) convocou a sua primeira assembléia geral para tratar de bactérias resistentes aos medicamentos.

Por que superbactérias podem ser a próxima grande ameaça para a humanidade? O uso excessivo e incorreto de antibióticos vem tornando algumas cepas de bactérias simplesmente intratáveis, permitindo a mutação constante das chamadas “superbactérias”. Recentemente, o problema foi descrito pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon como uma “ameaça fundamental” para a saúde e a segurança global.

Superbactérias matam cerca de 700.000 pessoas por ano, entre elas 230.000 recém-nascidos. Mas, de acordo com um recente estudo britânico, este número vai subir para um montante de 10 milhões por ano até 2050 – tanto quanto os casos de Câncer – se nenhuma ação for tomada. Isso significa um baque de 100 trilhões de dólares para a economia global. Seguindo um movimento liderado pelo Reino Unido para aumentar a consciência do potencial impacto da resistência antimicrobiana, os membros da ONU se comprometeram a entregar, até 2018, um relatório atualizado sobre a guerra contra superbactérias.

Mas, em seu pequeno laboratório do outro lado do mundo, Shu Lam já está vários passos à frente. Ela acredita que o seu método de matar bactérias utilizando pequenas moléculas em forma de estrela, construídas com cadeias de unidades de proteínas chamadas polímeros peptídicos, possa ser uma alternativa inovadora aos antibióticos que já não funcionam.

Shu Lam trabalha em conjunto com o Professor Greg Qiao, da Universidade de Melbourne, Austrália. “Nós descobrimos que, por ser o polímero um alvo preferencial das bactérias, podemos matá-las de várias maneiras”, diz Lam, cercada por uma forte equipe de experts. “Uma das formas é causar danos físicos à bactéria, quebrando a parede celular dela. Isso cria um forte estresse sobre as bactérias, fazendo com que comecem a se matar”.

Sua pesquisa, publicada este mês na renomada revista Nature Microbiology, já foi festejada por cientistas como um avanço que poderia mudar a face da medicina moderna. Lam “constrói” as moléculas em forma de estrela no laboratório da renomada Escola de Engenharia de Melbourne. Cada estrela tem 16 ou 32 “braços” de polímeros peptídicos, um processo que ela compara a montar pequenos blocos de Lego.

Quando libertado, os polímeros ataca as diretamente superbactérias, ao contrário de antibióticos, que criam um “pântano tóxico” destruindo também as células vizinhas, saudáveis. Lam tem testado suas “estrelas” em seis superbactérias diferentes em laboratório e contra uma cepa de bactérias em ratinhos, todos com sucesso. Mesmo depois de várias mutações, as superbactérias se mostrara incapazes de lutar contra os polímeros de Lam.

“Achamos que os polímeros são realmente eficazes em expulsar infecções bacterianas”, diz ela. “Eles se mostram realmente eficazes no tratamento de camundongos infectados por bactérias resistentes aos antibióticos utilizados. Ao mesmo tempo, eles são inofensivos para as células saudáveis do corpo”. A pouca toxicidade dos polímeros se dá pelo tamanho dos polímeros peptídicos, cerca de 10 nanómetros em diâmetro. Grandes, eles não conseguem entrar nas células saudáveis.

Sua descoberta deixou pouco tempo para vida social. Devido à sensibilidade dos seus experimentos, até mesmo os fins de semana de Shu Lan são dedicados ao trabalho. “Por um tempo, eu tinha que vir para o laboratório às 04:00 da manhã para cuidar dos meus ratos e minhas células”, diz ela.

Mas para a filha de um médico, o sacrifício valeu a pena. “Eu sempre quis me envolver com algum tipo de pesquisa que pudesse ajudar a resolver sérios problemas”, diz ela. “Esta pesquisa é importante porque todos estão muito preocupados com superbactérias. De repente, um monte de pessoas começaram a me relatar que familiares (ou eles próprios) já tinha sido infectados ou perdido pessoas próximas, em decorrência de superbactérias”, acrescentou Lam. “Eu realmente espero que os polímeros que estamos desenvolvendo possa, de fato, ser uma solução, pois a crescente crise de superbactérias tem sido descrito por cientistas como um “lento tsunami”.

O mundo está lentamente despertando para a ameaça de uma era pós-antibiótico que poderia acabar com a medicina moderna e criar uma situação onde problemas comuns, como uma dor de garganta ou de joelho poderiam ser fatais. Foi Alexander Fleming, o escocês, que em 1928 descobriu a penicilina, o primeiro antibiótico do mundo, que primeiro fez uma advertência sobre as consequências de seu uso indevido. “Há o perigo de que o homem ignorante possa, em função de subdosagem, submeter microrganismos à quantidades não letais da droga, tornando-os resistentes”. Fleming fez essa advertência ao receber o prêmio Nobel, em 1945.

Meros 71 anos após a descoberta de Fleming que revolucionou saúde global, Margaret Chan, diretora da Organização Mundial da Saúde, alerta que todos os ganhos que os antibióticos trouxeram para a medicina moderna podem ser perdidos. “A contar pelas tendências atuais, uma doença comum, como a gonorreia, por exemplo, pode se tornar intratável”, disse Chan na semana passada. “Os médicos terão que enfrentar a realidade de dizer aos seus pacientes: Sinto muito – não há nada que eu possa fazer por você'”

Um surto de uma cepa resistente de febre tifoide na África e uma forma de tuberculose encontrados em 105 países já se provaram resistentes aos antibióticos. Bactérias gram-negativas, causadoras de doenças tais como pneumonia, meningite e infecções cirúrgicas ou em feridas locais, também está opondo resistência. Enquanto isso, apenas duas novas classes de antibióticos entraram no mercado no último meio século.

Para as empresas farmacêuticas, os antibióticos têm-se revelado um investimento pouco interessante, porque os custos de desenvolvimento são elevados e as drogas livram o paciente da doença alvo, após um curto período de tempo. Em compensação, as doenças crônicas, tais como pressão alta, requerem tratamentos diário para o resto da vida de um paciente.“Incentivos devem ser criados para reinventarmos a era prolífica na descoberta de antibióticos, como no período de 1940-1960″, disse Chan.

Lam espera que sua pesquisa inovadora possa encorajar as empresas farmacêuticas a investir. “Eu espero que atraia algum interesse, porque o que nós descobrimos é bastante diferente de antibióticos”, diz ela.“As pessoas me dizem por favor, trabalhe mais para que possamos ter uma solução que seja colocada no mercado. Mas eu sempre digo que, em pesquisa, precisamos ter muita paciência, pois ainda há um longo caminho a percorrer. “

O Professor Greg Qiao, orientador no Doutorado de Lam, diz que o projeto é um dos maiores avanços científicos que ele tem presenciado em seus 20 anos na universidade de Melbourne. Mas ele adverte que ainda se encontra nos estágios iniciais e vai precisar de pelo menos mais cinco anos para se desenvolver, a menos que muitos milhões de dólares possam ser investidos para que o processo possa ser acelerado. Um imenso trabalho interdisciplinar ainda é necessário para reduzir ainda mais a toxicidade e trabalhar para encontrar a melhor maneira de administrar o tratamento, seja por comprimido ou injeção.

Professor Qiao acrescenta: “A notícia realmente boa é que, no momento, se você tem a presença de uma superbactéria, fora os antibióticos, não há muito que se possa fazer. Temos, ao menos, uma alternativa agora.”

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GlaxoSmithKline modifica modelo de negócio no Brasil

Jornal Valor Econômico (04/10/2016) – matéria na íntegra

Sob a gestão de Aleksey Kolchin, novo presidente da operação brasileira, a GlaxoSmithKline (GSK), uma das maiores farmacêuticas do mundo, está implantando um novo modelo de negócios no país. Alinhada com a nova estratégia global para promover seus produtos junto à classe médica, a GSK do Brasil deixou de pagar para propagandistas bônus atrelados à prescrição de seus produtos, bem como viagens de médicos ou participação desses profissionais em palestras sobre tratamentos desenvolvidos pela empresa.

Agora, o foco é explorar cada vez mais plataformas multicanais, sobretudo digital, para conversar com profissionais da saúde. É um modelo onde o representante de vendas assumirá cada vez mais o papel de gestor de informação. Além disso, a GSK pretende direcionar mais recursos a instituições de pesquisa. “A tecnologia segue colocando a indústria farmacêutica no futuro”, explica Kolchin, que assumiu o comando da operação brasileira em dezembro de 2015. “Os representantes vão gerenciar um número maior de médicos e definir como falar ou fazer chegar a informação a um determinado profissional”, afirma.

glaxosmithkline

O novo posicionamento da GSK, pioneiro num setor que tradicionalmente recorre à visitação para promover seus produtos, foi anunciado no fim de 2013. Naquele ano, a farmacêutica se viu envolvida em um escândalo de pagamentos irregulares a médicos e autoridades na China, que ainda hoje repercute. Mas o executivo¬chefe da companhia, Andrew Witty, garante que a nova abordagem, que em 2011 já era testada nos Estados Unidos, não tem relação com o episódio.

“Nós já vínhamos nos perguntando se não haveria diferentes caminhos, formas mais efetivas de se operar, do que os meios que a indústria têm usado nos últimos 30, 40 anos”, disse Witty, em entrevista ao jornal “The New York Times”, publicada em 16 de dezembro de 2013. Desde então, a estratégia da GSK ganhou musculatura e, atualmente, no Japão, conferências via internet (webinar) podem atingir um público de 2 mil pessoas.

Uma pesquisa recente da consultoria McKinsey& Company também procurou respostas a essa indagação e chegou à conclusão de que os médicos estão abertos a novidades na forma como se relacionam com os laboratórios e isso pode trazer ganhos à indústria. O estudo aponta que o uso de multicanais (vídeos, telefonemas, e-mails, webconferências, entre outros) traz ganhos mensuráveis e algumas farmacêuticas chegaram a registrar aumento de 10% a 15% nas vendas, com redução em torno de 10% dos gastos com marketing.

Para Kolchin, o uso da tecnologia traz ganhos de produtividade e amplia o alcance das estratégias de divulgação, sem necessariamente levar à redução da força de vendas. “Estamos contratando nesse momento”, diz o executivo. No Brasil, a divisão farmacêutica da GSK conta com cerca de 430 representantes. “Esse novo modelo cria outros postos, como por exemplo em governança. É preciso verificar se as políticas estão sendo cumpridas”, explica.

Ao mesmo tempo, comentou Kolchin, canais digitais não conseguirão cobrir todo o contato com médicos e há profissionais mais conservadores, que ainda preferem o contato pessoal. “Não acredito nisso [na substituição integral da visita]. O que está havendo é a adição de novos canais, o que trará mais eficiência e produtividade”, ressalta. Com novos canais, argumenta, será possível chegar a mais médicos.

O executivo, nascido na Rússia e formado em Medicina, afirma que o Brasil é o melhor lugar para se estar entre os países emergentes, em termos de carreira, especialmente neste momento de transição para o novo modelo de negócios. A divisão farmacêutica da GSK no país deve encerrar 2016 com vendas totais de R$ 2 bilhões, após ter registrado crescimento de 29% no primeiro semestre.

A percepção, diz o executivo, é a de que há retomada da confiança no país, mas a crise econômica, uma das mais graves da história, deixou algumas marcas no mercado farmacêutico nacional, com impacto diferente em cada segmento. As vendas em volume de medicamentos, exemplifica, chegaram a mostrar declínio, em um mercado cujo crescimento nos últimos anos superou a marca 10% ao ano. Ainda assim, o Brasil continua sendo um dos melhores mercados em desempenho no mundo.

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